A Mongólia Interior, região autônoma da China que faz fronteira com Rússia e Mongólia, é o novo palco de conflitos étnicos no país. Desde o dia 23, há protestos de pastores e de estudantes em várias cidades. É gente marchando nas ruas por seus direitos, num país em que a harmonia almejada se constrói não pela pluralidade de ideais, mas pela imposição do que é o correto, segundo a visão do poder central. Os mongóis reeditam os casos do Tibete em 2008 e de Xinjiang em 2009 para pedir o fim da hegemonia han e o cuidado com a sua cultura e identidade.
O estopim foi a morte do pastor mongol identificado apenas como Mergen, atropelado semana passada por um caminhão cujo motorista era um chinês de origem han. O acidente teria sido planejado, acreditam alguns mongóis, porque Mergen teria denunciado o descaso e o desrespeito das usinas de carvão ante as pastagens da região, abrindo estradas onde antes havia apenas rebanho – o que prejudica o ambiente local e a economia, especialmente sob o ponto de vista dos pastores. Aí, perceba outra repetição de casos passados: o motor da revolta é o sentimento geral entre as minorias étnicas de que o desenvolvimento econômico chinês beneficia apenas quem é han. Digno de nota é o fato de a usina pertencer a hans. E que estes últimos compõem 80% dos moradores da região, habitada por 24 milhões de pessoas.
O governo local nega, mas há relatos de que a Mongólia Interior – ou partes dela – viva agora sob lei marcial ou estado de sítio e vigilância constante por forças militares e policiais. Certo é que já há censura na web chinesa, que vetou buscas tão singelas quanto o próprio nome Mongólia Interior nos serviços de microblogs chineses. Usuários do Renren, o clone do Facebook em mandarim, que tenham Mongólia Interior como região de origem têm o perfil parcialmente indisponível. O serviço de mensagens instantâneas mais popular do país, o QQ, já estaria bloqueado na região.
É que a população está desde 23 de maio organizando protestos pelas ruas – e muitos chamados teriam ocorrido a partir da internet. O principal foi marcado para esta segunda-feira, embora não se saiba o que pode ocorrer. Segundo reportagem do Wall Street Journal, atos em diferentes cidades da região já teriam deixado 18 feridos e provocado a prisão de outras 40 pessoas. Jornalistas estão impedidos ou têm dificuldades de trabalhar por ali. O governo reagiu ainda com mensagens telefônicas alertando para um aumento no controle e repressão, caso as manifestações continuem.
Aliás, Beijing é craque em aumentar controle e repressão. Desde fevereiro deixou isso bem claro, ao reagir ao chamado anônimo publicado no site Boxun.com para uma versão chinesa da Revolução dos Jasmins, que seria a réplica da Primavera Árabe em solo mandarim. Os atos pró-democracia conclamados para dois domingos em dezenas de cidades chinesa, incluindo Beijing e Shanghai, resultaram em mais força repressiva do que divergente, em uma campanha anti-jornalistas estrangeiros e no pior ataque à dissidência local. Mais de cem ativistas foram presos ou simplesmente sumiram, sem qualquer cuidado legal, em descumprimento até a frágil constituição chinesa, constituída por interpretações que amplificam a distância entre o que se entende por China e pelo Estado de Direito.
Agora, as autoridades enfrentam críticas explícitas, com gente nas ruas. E pertinho de Beijing. Hohhot, a capital da Mongólia Interior, está a 45 minutos de avião da cidade. De trem ou de carro, são 11 horas. O descontentamento bate à porta outra vez, agora num movimento orgânico, de dentro para fora, surgido a partir de um sentimento único: opressão.
As explosões étnicas não são novidade na China. O caso mais notório são dos tibetanos, que há 60 anos defendem direitos por mais autonomia, enquanto o discurso oficial dá conta de que o Partido Comunista não só tem garantido crescimento econômico e melhoria na qualidade de vida da região, mas promovido a democracia.
Em 2009, o mundo voltou as atenções para Xinjiang, a província onde vivem os uigures, minoria étnica muçulmana. Lá, o descontentamento resultou em quase 200 mortes e provocou reação pesada do poder em Beijing, que cortou de linhas telefônicas ao acesso à internet (suspenso por quase um ano), além de botar exército nas ruas para controlar a população. Até hoje a liberação de passaportes para os uigures é um pesadelo, e a maioria jamais poderá deixar o país. O fato de serem vizinhos do Afeganistão e do Paquistão só faz complicar a vida, uma vez que uigures seriam integrantes do grupo terrorista do Turquestão Oriental, reconhecido pelos Estados Unidos e pela Organização das Nações Unidas, e que teria ligações com a Al Qaeda.
Desta vez, os mongóis assumirem o papel de protagonistas nos constantes embates com os han. Em 1990 ocorrera uma pequena – mas violenta – revolta separatista. Depois disso, a região primava pela conduta pacífica, o que no socialismo com características chinesas é sinônimo de concordar sempre. Não vale sequer perguntar “por que”.
Para entender melhor toda esta história de tensões envolvendo etnias, vale dizer que a China é composta por 56 minorias étnicas. Os han são 91,51% da população, segundo o censo 2010. O que incomoda não é a evidente vantagem numérica, mas o que os demais chineses entendem como um esforço para a dominação política, econômica e cultural han.
Os mongóis são a essência da região onde o verde é mais verde, na versão chinesa de pradarias bucólicas. A cultura é mais do que única. São feras em cavalaria e adotam um estilo nômade. São herdeiros dos lendários Khan – do Gengis Khan ao neto Kublai Khan, o primeiro imperador não chinês a governar toda a China, responsável por reunificá-la e fundar a poderosa Dinastia Yuan, em 1271.
O domínio mongol em Beijing deixou marcas. Tanto que na cidade antiga, as vielas são chamadas de hutong (lê-se rútong) desde a Dinastia Yuan devido a uma palavra mongol que significaria “poço de água”.
Os primos manchus, que governaram o país na Dinastia Qing (1644-1912), trouxeram à Cidade Proibida inscrições no alfabeto mongol, sistema de escrita vertical que corre da esquerda para direita, descendente direto da escrita uigur, surgido entre os séculos 7 e 8. Este alfabeto é encontrado apenas na Mongólia Interior, porque a Mongólia adotou o cirílico em 1946.
Hoje, a Mongólia Interior – a terceira maior província chinesa, depois de Xinjiang e Tibete – é pródiga em carvão, base energética da China, em energia eólica (a capacidade instalada é de 6,5 GW, a maior do país) e é fonte abundante dos metais terras-rara, que levam um nome tão insólito quanto os produtos que deles dependem, armas de alta tecnologia e gadgets como iPads ou iPhones e outros tablets e assemelhados. Ou seja, centrais na economia não apenas chinesa, mas global. E centrais até para que a Foxxconn monte os produtos Apple no Brasil. Pelo menos a preços competitivos. Ou seja, o problema das pastagens e do carvão pode afetar a maneira como você lerá o seu jornal amanhã. Numa app para o tablet baratinho adquirido no Brasil, ou impresso, devido aos impostos escandalosos para produtos importados às terras verde-amarelas.